Eu odeio Ele – Deixei de lutar contra Deus

Capítulo 39

“Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida.” (Salmos 119:50)

Passei mais dois dias no hospital, meu pai não saiu do meu lado por mais que eu o mandasse descansar. Durante esse tempo o bebê mexeu pela primeira vez e aquilo me deu um ânimo. Foi maravilhoso senti-lo, era como se fosse uma extensão do Fumaça e o melhor era ter a sensação de que nunca mais estaria sozinha.

Pra minha surpresa a Clara foi me visitar. No começo eu não sabia como agir, e notei que nem ela, pois começou perguntando como eu estava e dizendo que sentia muito. Porém quando viu que não podíamos mais adiar o inevitável tocou no assunto.

Disse que demorou a entender que eu tinha sido tão enganada quanto ela e que não me culparia mais por nada. Pediu desculpas pela sua reação e me contou da reação da sua mãe quando soube de tudo. Assim como a Clara, a Marta tinha ficado uma fera comigo também, mas logo amoleceu o coração quando tomou conhecimento do ocorrido com minha mãe.

Parte de mim ficou feliz em saber que o Wilson tinha contado tudo, mas a outra parte me alertava que isso só tinha acontecido por ele ter se sentindo acuado. Afastei o pensamento e me concentrei na minha amiga, ou melhor, minha irmã.

Ela confessou como tinha sido descobrir e que se sentiu traída, mas que naquele momento estava feliz em saber que ao menos a traição de seu pai resultara em mim. Ambas rimos e percebemos que estava tudo bem entre a gente, o que foi algo importante, já que a Clara sempre foi minha melhor amiga e eu não queria perder mais ninguém.

– Hoje você sai daqui, bela adormecida.

– E você se ver livre de mim.

A Lúcia deu um sorriso murcho e me entregou um copo de água.

– Deixe esse bebê longe de confusão.

– Pra isso ele teria que ter outra mãe. – Era pra ser uma brincadeira, mas saiu em um tom seco.

– Você vai ser uma ótima mãe. – Meu pai entrou.

“Só se eu não puxar as duas que eu tenho”, pensei.

– O senhor ligou pro Ricardo? – Eu disse pra mudar de assunto.

– Sim, ele está vindo. – Pedi que meu pai ligasse pra ele para que eu pudesse agradecer por tudo. – Enquanto isso você vai ajeitando suas coisas.

Eu só tinha alguns pertences básicos, mas resolvi fingir que guardava só pro tempo passar.

– A porta estava meio aberta, por isso já fui entrando.

– Sem problemas. – Eu disse sentando na ponta da cama.

– Como você está?

– Sei lá, tenho tentado não pensar muito para não doer.

– Mas não é melhor sentir de uma vez do que achar que ela vai estar em casa quando você chegar?

– Eu não acho. Se teve uma coisa que eu aprendi nessas últimas semanas é que nunca nos acostumamos com a dor.

– Acostumar não, mas aprender a lidar com ela é possível. – Ele disse sentando ao meu lado.

– Eu não sei como fazer isso. – Desabafei olhando pro chão. – Não faço ideia de como vai ser quando chegar a hora do jantar e não ter mais ela pra reclamar porque não como verduras. – Dei um sorriso me lembrando das inúmeras vezes que isso aconteceu. – Não sei como vai ser ir pra escola e não ter ela preparando meu café e pior ainda, não sei como vou viver sabendo que tudo não passou de uma farsa, que ela nunca me amou. – Minha intenção não era falar aquelas coisas, mais quando vi já tinha saído. – Estar aqui no hospital faz tudo parecer um sonho ruim. Eu fico achando que quando passar por aquela porta ela vai está me esperando e dizer que tudo foi um pesadelo. Sair daqui me assusta mais do que admito, porque voltar pra casa significa confirmar que tudo é real.

Ele colocou a mão sobre meu ombro e disse:

– Vai dar tudo certo.  – Olhei pra ele confusa. – Que foi?

– Quando eu quero que você fale a única coisa que sai são quatro palavrinhas clichês?

Ele fez cara de ofendido.

– Você não me deixou terminar. Vai dar tudo certo porque eu sei que você parou de brigar com Deus.

– Como você sabe disso?

– Pela maneira como você está lidando com tudo. Tem se esforçado para ficar calma, mesmo que dentro de você esteja um turbilhão de sentimentos.

– Eu não parei de brigar com Ele, só pedi que me ajudasse a lutar.

– Tenho certeza que é uma opção melhor do que lutar contra Ele.

Dei um sorriso sincero. Aquele policial maluco conseguiu me ajudar desde que nos conhecemos. Ele realmente tinha se tornado um amigo.

– Obrigada.

– Por não ter te levado pra delegacia naquele dia? – Seu tom era de riso. – Nós dois sabemos que se eu tivesse feito isso tínhamos evitado muitas coisas. 

– Eu teria dado um jeito de fugir, e o obrigada é por tudo, inclusive por estar aqui até agora.

– Se não fosse eu seria outro. Só que ninguém estava a fim de proteger uma garota marrenta.

– Então jogaram pra você?

– Isso mesmo.

Eu dei risada e ele me acompanhou.

– Cadê o Toddy?

– Foi liberado. Era esse o acordo. Ele entregava tudo o que sabia e recebia o direito de responder em liberdade.

– Bom pra ele… – Eu não fui tão sincera naquelas palavras. Achava um pouco injusto o Toddy está livre tendo a chance de fazer o que desejasse enquanto o Fumaça já tinha perdido a sua.

– Eu acho que dessa vez ele vai mudar de vida. Me pareceu sincero quando disse que queria uma oportunidade.

Eu não disse nada, estava pasma com a facilidade que ele tinha pra confiar nos outros. O Toddy era do mesmo tipo do Fumaça, eles se arrependiam, mas dificilmente acreditavam na possibilidade de mudar. Com certeza aquilo tinha sido uma jogada e me perguntei como o Ricardo conseguiu ser policial com tanta ingenuidade. 

– Eu preciso ir. – Ele disse e na hora senti um aperto no peito.

– Meu pai já deve estar louco. – Falei para disfarçar.

Levantei da cama e fui caminhando em direção à porta, ele fez o mesmo, mas antes de abrir me falou uma última coisa.

– Priscila, eu não sou capaz de imaginar o quanto vai ser ruim pra você, mas pode ter certeza que Deus sempre estará do seu lado. O único problema é que Ele não é mal-educado, não grita, respeita nossas vontades e não se mete em nossa vida quando não pedimos. Por isso quando você achar que não vai aguentar, fale com Ele, mesmo que não abra literalmente sua boca, chame-O no coração. Tenho certeza que Ele vai te responder.

Aquilo trouxe um conforto inexplicável, por alguns segundos aliviou o medo e o nervosismo que eu estava tentando evitar. Não tive outra reação senão abraçá-lo e mesmo surpreso com o gesto retribuiu.

– Obrigada, vou me lembrar disso.

– Vê se lembra de deixar de ser marrenta. – Brincou.

– E você vê se deixa de acreditar demais nas pessoas.

– Até em você? – A pergunta veio acompanhada de um meio sorriso.

– Talvez. Você mesmo disse que…

– Teria evitado muitas coisas se… blá blá blá…

Não estávamos mais nos abraçando, mas percebi que ainda continuamos muito próximos. Tão perto que percebi seus olhos vacilarem e ele se afastar um pouco quando eu disse que confiaria minha vida a ele depois de tudo o que tinha feito por mim. Para minha surpresa não tomei aquela reação como uma ofensa. Eu já tinha me acostumado com esse jeito meio maluco dele.

– Eu nunca achei que ficaria amiga de um policial, principalmente do que queria me prender.

– Tá vendo, não sou só eu que confio nas pessoas erradas. – Brincou e eu sorri.

Um sorriso leve e tranquilo, como há muito tempo eu não dava.

O celular dele tocou, e em um pulo nos afastamos.

– Tá na minha hora.

Eu não disse mais nada, não consegui. Um bolo na minha garganta se formava, então apenas assenti e o vi sair.

Aquela foi a última vez que nos falamos.

Continua…

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