Eu odeio Ele – Eu surtei

Capítulo 24

“Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus? “Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim?'” (Romanos 9:20)

Com a cabeça encostada em seu peito ouvia seu coração bater, quando um questionamento me ocorreu.

– Qual é o seu nome?

Ele deu uma risada e disse:

– Fumaça?  

– Quero saber seu nome verdadeiro.

Ele me encarou e eu sustentei o olhar, como sempre, parecia que podia ler meus pensamentos.

– Lucas.

– Uau.

– Que foi? É feio?

– Não, você só não tem cara de Lucas.

– E tenho cara de que? Fernando? Marcos?

– Não! Você tem cara de Fumaça. Por falar nisso, quem te deu esse apelido?

Ele se fechou na hora e respondeu:

– Minha mãe.

– O que aconteceu com sua mãe, Fumaça? – Na hora em que as palavras saíram me arrependi.

– Ela morreu.

– Como? – Coloquei a mão em seu queixo e o conduzi a olhar para mim. Queria que visse que não me importava o quão terrível fosse a história, eu só queria conhecê-lo.

– Eu a matei. – Ele disse, e me afastei de uma vez.

– O quê?

– Você não queria saber? Eu a matei.

– Para com isso, você está me assustando. – Falei, com a voz trêmula.

– É verdade. Não só ela, mas meu pai também.

Ele tinha uma escuridão no olhar que me fez tremer da unha do pé ao fio de cabelo.

– Como? – Sussurrei.

– Um dia eu cheguei da escola e meu pai estava batendo na minha mãe, como acontecia todos os dias em que ele bebia, não aguentei mais ver aquilo e parti para cima dele. Nos atracamos por um tempo até que consegui escapar, fui até a cozinha, peguei fósforo e álcool e o incendiei.

Ele falava com uma frieza tão grande que me fez querer sair dali correndo. Do que mais ele seria capaz?

– Minha mãe não aguentou vê o marido pegando fogo e foi socorrer, cinco minutos depois a casa inteira estava incendiando e eu fugi.  

– É mentira você não fez isso…

– Eu fiz Priscila e por isso pra mim não tem mais jeito, entende? – Ele gritou e eu pulei da cama. – Priscila, aonde você vai?

– Ficar bem longe de você. – Respondi e fui pra sala. Eu tremia da cabeça aos pés, ele não tinha alma como eu havia imaginado, era um seco, um perdido que tinha matado os próprios pais e não se arrependia. Desejei ficar o mais longe possível dele e assim, eu fiz.

Vi a vila de verdade pela primeira vez, as crianças brincavam de amarelinha enquanto os pais conversavam. Algumas mulheres estendiam roupas e outras pessoas iam para o trabalho.

O ambiente era bem família, tinha uma sensação de segurança e tranquilidade, bem diferente da correria de São Paulo. Torci para passar despercebida, mas foi impossível.

Assim que cheguei à metade do caminho os outros moradores começaram a me olhar e apesar de não virem até mim (o que achei bem agradável naquele momento) me cumprimentavam com um sorriso amistoso.

A rua era deserta, pelo visto em Goiânia as pessoas gostavam de ficar mais dentro de casa.

Quando virei à esquina vi o quanto a cidade era cheia de árvores. Tudo estava rodeado por verde, as plantas deixavam o lugar tranquilo e bem aconchegante, mesmo ali, no meio da rua.

Acho que isso até contribuiu para que minha ficha caísse. Para onde eu ia? Para São Paulo eu não podia voltar, além de ter um louco querendo me vender, não estava pronta para enfrentar meus pais e as desculpas por terem mentido pra mim a vida toda.

Decidi que ficaria andando até pensar no que fazer, enquanto isso ia conhecendo a cidade, já que estava ali mesmo, não custava nada aproveitar alguma coisa boa.

Andei por quase 40 minutos sem rumo e estava totalmente perdida. E para piorar, ninguém conseguiu me mostrar o caminho de volta, já que eu não sabia explicar onde a vila ficava.

O cansaço e o arrependimento por ter fugido daquela maneira estavam dando as caras. Acho que não tinha sido totalmente justa com o Fumaça a minha reação, tinha sido eu a puxar o assunto.

Mas você não pode me julgar por ter ficado assustada. Matar pessoas estranhas para sobreviver é uma coisa, matar os próprios pais é outra. Por mais ruins que eles sejam, ele poderia ter fugido.

A rua que parei para descansar não estava de todo deserta. Pessoas conversavam e algumas notavam minha presença, porém me olhavam de um modo estranho. Nunca senti tanta vergonha na vida. Uma moça veio me perguntar se eu estava perdida, tive vontade de dizer que sim, mas do que isso ia adiantar? O máximo que ela poderia fazer era ligar pra polícia e isso estava fora de cogitação, pois eu teria que voltar para casa.

– Moça! – Tive uma ideia antes dela se afastar. – Esqueci meu celular em casa, será que você pode me emprestar o seu?

Ela pareceu hesitar, também não a culpei, eu era uma estranha e provavelmente minha aparência não estava das melhores.

– Rapidinho, porque preciso ir trabalhar.

Concordei e ela ficou esperando de lado, prestando atenção em cada movimento meu. Disquei rápido o número e no terceiro toque obtive sucesso.

– Alô!

– Clara, sou eu! – Ouvir a voz da minha amiga não trouxe o conforto que eu esperava. Agora nós éramos meias irmãs e ela não fazia ideia.

– Priscila, graças a Deus! Onde você está? Está tudo bem? Estamos todos preocupados.

– Fica calma, amiga. Eu estou bem.

– Por que você fez uma loucura dessas? Seus pais estão quase pirando.

A menção a meus pais fez com que um misto de emoções pairasse em meu coração. Culpa, arrependimento e, por fim, raiva.

– Por favor, não conta pra eles que eu liguei.

– Priscila, eu não posso esconder isso, meu pai está me pressionando.

Aquilo foi o suficiente para me fazer desligar. Falar com a Clara e ouvir a menção sobre seu pai me fez senti o peso da realidade. Eu era filha do pai da minha melhor amiga. Fui enganada a vida toda por pessoas que se diziam “direitas” e ainda descobri que sou resultado de uma noite de bebedeira da minha tia.

Não lembro direito do momento em que a moça arrancou o celular da minha mão. Só sei que mesmo sentada senti minhas pernas ficarem bambas e uma sensação muito ruim no estômago apareceu.

Sem que eu nem percebesse as lágrimas apareceram, tinha um buraco no meu peito. Um ódio tomou o lugar da dor, olhei para o céu e não aguentei, coloquei pra fora tudo o que eu estava sentindo.  

– Que tipo de Deus é o Senhor?! Um Deus que ilude com uma liberdade que não existe! – A cada grito minha alma se libertava. – Um Deus cruel e tirano que faz de tudo para vida ser mais dura do que ela deveria ser! Um Deus que não sabe ouvir um não como resposta! Um Deus que trata as pessoas como fantoche! O que o Senhor quer de mim? O quê? – Minha garganta parecia que ia rasgar, mas eu nem me importava, finalmente estava colando pra fora tudo o que vinha reprimindo. – Um Deus que não deixa ninguém ser feliz se não for do Seu jeito! Eu te odeio!

Chutei uma pedra e na hora meu pé latejou, dei um grito e sentei para tentar amenizar a dor, foi quando ouvi um barulho de sirene. Levei um minuto para identificar de qual lado vinha o carro, a dor no pé me deixara totalmente desorientada.

–Tudo bem, moça? – Perguntou uma voz jovem demais para ser de um policial.

– Sim.

– Você está perdida?

Quando ouvi a porta do carro bater levantei a cabeça e quão grande foi minha surpresa quando vi que era mesmo um policial. Ele era novinho, devia estar começando, tinha um ar travesso e nem de longe eu o respeitaria. Não pude deixar de notar também que era charmoso e tinha a pele de um tom moreno que eu adorava, além do rosto perfeitamente desenhado e os cabelos com cada fio no lugar, o que devia ser uma tentativa de fazer as pessoas o levarem a sério. Mas aposto como apenas deixava ele mais bonito do que realmente devia ser.

– Depende… – Tentei fazer uma pouco de graça para vê se tirava ele do meu pé.

– Olha garota recebi reclamações de que você estava dando algum ataque com Deus e resolveu atrapalhar o sossego das pessoas. – Ele ficava mais bonito ainda tentando parecer durão.

– Para de exagero.

– Exagero? Você está enfrentando um policial, garota! Você usou algum tipo de droga?

– Droga? Claro que não! – A dor havia diminuído e eu já conseguia pensar com clareza. Realmente comecei a chorar logo que desliguei o telefone, desde então só me recordo com nitidez dos gritos. Isso! Deve ter sido o barulho que incomodou as pessoas.

– Você vai ter que me acompanhar.

– Tenho que voltar pra casa.

– Você fugiu de casa?

Quase respondo que sim, mas parei bem a tempo.

– Não, claro que não! Eu tenho que ir.

Levantei e ele se colocou na minha frente.

– Sinto lhe dizer, mas você não vai a lugar algum antes de passar na delegacia e termos certeza que você não usou drogas. E então ligaremos para os seus pais.

– Meus pais não moram aqui. Por favor, me deixa ir embora, eu não usei nenhuma droga.

Ele pareceu avaliar se acreditava em mim ou não.

– Você vem comigo. – Pegou levemente no meu braço, mas foi a minha chance.

– Me solta, se não faço um escândalo.

– Para de drama, garota, eu só vou te levar pro carro.

– Eu não vou entrar aí com você. Nem sei se você é um policial de verdade.

Ele fez uma cara de ofendido com minha observação, será que tinha realmente acreditado naquela encenação?  

– É melhor você obedecer. – Sua voz continuou firme, mas soltou meu braço.

– Ou o quê?

– Ou vou ligar para delegacia e te descrever. Tenho certeza que logo acharão seus pais.

Achei melhor não testar se ele faria realmente aquilo. Pelo o que a Clara disse, já deviam ter colocado a polícia atrás de mim, então não demoraria muito para ligarem uma garota encontrada com a perdida…

– Por favor, me deixa em casa, eu realmente tive um dia ruim…

– Sua aparência não nega. – Saiu com um tom de brincadeira, mas até eu percebi que foi inapropriado para uma autoridade como ele. – Desculpe não quis dizer isso.

– Relaxa, eu sei que estou horrível. – O pedido de desculpas foi tão sincero que nem cogitei negar.

– Que tal você me contar o que aconteceu?

– Ai você me leva direto para casa?

– Tenta. – Apesar dele está tentando ser legal, eu sabia que se contasse a verdade era capaz de nunca mais vê o Fumaça.

– Briguei com meu namorado e sai de casa.

– E por isso resolveu brigar com Deus também?  

– Com esse ai eu já brigo faz tempo.

– E aposto que tem perdido a guerra.

– Como você sabe? – O assunto estava ficando pesado, mas por ele está me dando a chance de falar resolvi levar na esportiva, ou pelo menos tentar, até por que desacato a autoridade é crime. Mesmo que essa autoridade tenha cara de garoto.

– Nunca vi alguém brigar com Deus e levar a melhor.  

Não respondi, queria acabar logo com aquilo.

– Então já pode me deixar em casa?  

– Onde seus pais moram? Você é muito nova para brigar com o namorado e sair andando sem rumo.

– Não sai andando sem rumo. – Fiquei na defensiva. – Eu só queria dar um susto nele.

– E conseguiu?

– Não sei, se me procurou não foi o bastante.

– Você não respondeu a outra pergunta.

– Qual? – Me fiz de desentendida.

– Seus pais. – Respondeu impaciente.

– Moram no interior, vim pra cá estudar.

Avaliando o que eu dizia, ele transparecia uma inocência de que por mais durão que tentasse parecer, no final acreditaria em mim. Imaginei que devia ser assim com todo mundo e me perguntei como conseguiu entrar para polícia.

– Vou deixar você em casa, mas da próxima vez pode ser que você não tenha tanta sorte e não me encontre em um dia tão legal.

– Não vai ter próxima vez. – Garanti, tentando conter a risada.

– O que foi? – Perguntou intrigado.  

– Nada não, é só que você fica engraçado quando fala sério.

Ele não respondeu. Fechou a cara e apenas disse:

– Onde você mora?

Falei mais ou menos como era a rua da vila e ele logo identificou.

Seguimos calados por alguns minutos e não aguentei.

– Desculpa, eu não estava rindo de você. – Eu não pedia desculpas com frequência, mas achei que devia pela bondade dele. Fazia tempo que eu não encontrava pessoas bondosas assim, tirando o Marcus, claro, mas já tinham acontecido tantas coisas que aquela viagem de dias parecia de anos.

Ele murmurou um “não se preocupe com isso” e anunciou que tínhamos chegado.   

– Obrigada por me trazer e também por não me levar à delegacia.

– Por nada.

Desci do carro e fiquei esperando ele ir embora. Só então me dei conta de que nem tinha perguntado o seu nome, e nem ele o meu. Dei risada, aquele cara realmente devia estar começando como policial.

Respirei fundo e entrei na vila, de repente ficara frio, andei com mais presa até em casa e me assustei com a sensação que senti de que ali realmente era minha cas . Abri a porta e um calafrio percorreu meu corpo.

Eu não fazia ideia do que ia falar para o Fumaça ou do que ele ia dizer para me convencer de que estava arrependido, mas quando entrei na sala percebi que a última coisa que íamos fazer era conversar.

Continua…

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