Eu odeio Ele – Eu só queria ser livre, não trabalhar em um bar contra a minha vontade

Capítulo 15

“Então, os filisteus pegaram nele, e lhe vazaram os olhos, e o fizeram descer a Gaza; amarraram-no com duas cadeias de bronze, e virava um moinho no cárcere.” (Juízes 16:21)

Um Uno branco tinha sido deixado no estacionamento da rodoviária, e o Fumaça não me deu nenhuma satisfação sobre quem era o autor daquele “presente”.

A cidade era linda e mesmo a noite pude perceber como era diferente de São Paulo. Tudo muito calmo. As árvores, que estavam por todos os lugares, me fizeram sentir como se estivesse no interior.  

Chegamos a uma rua sem saída e entramos em uma vila que ficava bem no final. O local era até agradável, tinha várias casas e cada uma delas possuía uma varanda. Naquele horário as pessoas já estavam dentro de casa, o que foi até bom, não tinha ânimo para encarar ninguém e inventar mentiras.

O Fumaça foi caminhando para uma casa de cor amarela e notei que era a menor. Ele abriu a porta – a chave estava junto com a do carro – e entrou. Fui atrás um pouco receosa, mas quando entrei vi que não tinha nada a ver com o calabouço que imaginei.

Era uma casa normal, um pouco pequena, mas tinha sala, uma cozinha que ficava logo de lado da entrada, e três portas que conclui serem os quartos e o banheiro.

Apesar de bem iluminado e aconchegante, olhei para todos os lados para ver se não tinha ninguém escondido.

– Aquele quarto pode ser o seu. – Disse, apontando para porta do lado esquerdo. –  E eu fico com o outro.  

Peguei minhas coisas e fui para o meu novo reino. Fechei a porta e tentei absorver o ambiente, era pequeno, tinha uma cama, um guarda-roupa e uma cômoda, além de uma janela que fui correndo abrir.

Sentei na cama para esperar minha vez de ir ao banheiro, o colchão era duro, bem diferente do meu, mas do jeito que eu andava cansada aquilo não seria um problema. Fiquei passando em minha mente cada detalhe daquele dia, tudo o que havia acontecido, demorando mais na maneira como o Fumaça me tratou e em minha conversa com o Marcos.

Tudo se passou em meus olhos e fiquei me perguntando como cheguei àquela situação. Sempre fui decidida, sabia o que queria, tanto que enfrentei meus pais, porém agora estava à mercê da vontade de um garoto que eu mal conhecia, e que mudava de humor a cada 5 minutos.

A angústia voltou, em um lugar totalmente desconhecido me senti mais sozinha do que nunca. Lembrei das palavras do Marcus. Será que isso era mesmo verdade? Se Deus tinha o poder de estar ali comigo por que eu não O sentia? Por que o vazio e o medo só aumentavam?

Tive vontade de chorar, uma sensação de insegurança tomou conta de mim, meu coração parecia que ia explodir de tantos sentimentos misturados. Eu não sabia o que era mais forte, o medo ou a saudade, a raiva ou a humilhação, a expectativa ou a mágoa. Tentei segurar as lágrimas, falhei miseravelmente.

<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">Chorei até adormecer e quando acordei corri para o chuveiro. A casa estava silenciosa, o Fumaça tomava café em uma mesa que ficava entre a sala e a cozinha e estava tão concentrado olhando para o fundo da xícara que nem me viu passar.Chorei até adormecer e quando acordei corri para o chuveiro. A casa estava silenciosa, o Fumaça tomava café em uma mesa que ficava entre a sala e a cozinha e estava tão concentrado olhando para o fundo da xícara que nem me viu passar.

Tomei banho e tentei ao máximo diminuir o inchaço nos olhos, quando terminei me dei conta que não tinha levado a roupa para vestir, teria que passar só de toalha na frente dele, o que só de pensar me deixou totalmente desconfortável.

Torci para que continuasse na sua concentração de antes e nem percebesse minha presença, mas não aconteceu. Assim que sai do banheiro ele virou a cabeça na minha direção e me olhou de cima a baixo. Fiquei constrangida, óbvio, mas confesso que ser avaliada por ele naquela situação causou uma eletricidade que eu não queria sentir.

– Bom dia. – Falou com um riso escondido na voz e parando demoradamente na minha boca.

– Bom dia. – Usei o tom de voz mais seco que consegui e fui para o quarto.

Tentei colocar um short não muito curto, já bastava ele ter me visto de toalha, e cogitei a possibilidade de esperar ele levantar para eu ir comer, mas a fome falou mais alto.

– Com toalha era melhor. – Disse assim que entrei na sala, e fiquei mais irritada ainda, porque dava para perceber que mais uma vez seu humor tinha alterado.  

– Melhor você me deixar comer sozinha. – Falei, sem conseguir disfarçar o constrangimento.

– Vamos precisar trabalhar em um bar, à noite. – Comentou, ignorando meu pedido.

– O quê? Isso só pode ser brincadeira! Eu não vou trabalhar em bar nenhum.

– Se quiser ter o que comer e vestir enquanto estivermos aqui vai ter que trabalhar.

– E precisa ser em um bar?

– Qual o problema? – A mudança em seu tom reacendeu minha raiva.

– Eu não quero que o meu primeiro emprego seja em um bar!

– Eu nunca fui babá e nem por isso estou reclamando!

Aquilo me acertou em cheio.

– Não reclama, mas sempre que pode faz questão de deixar claro que sou um peso!

– Você não é um peso Priscila, só é teimosa. – Tentou, sem sucesso, consertar o que tinha dito.

– Eu fugi com você seu desgraçado, como pode me chamar de teimosa? Fiz tudo o que você mandou até hoje, e só me dei mal!

– Não foi isso o que pareceu ontem!

– Está querendo dizer que fiquei a viagem toda me agarrando com o Marcus? –  Encarei ele e notei que seus olhos suplicavam por uma resposta. Tive vontade de dizer que fiz isso mesmo, mas a expressão dele não me deixou, nem me pareceu justo com o Marcos. – Não sou esse tipo de garota.

Ouvi um suspiro de alívio, mas ao contrário do que eu esperava, ele não disse nada, levantou da mesa e foi em direção à porta.

– Onde você vai?

– Acertar nosso trabalho, quando voltar trago comida.

– E vou ficar sem fazer nada o dia todo? –  Perguntei indignada.

– Faça o que quiser, só não saia de casa.

– Virei prisioneira???

– Só nas suas ideias, pedi apenas para você não sair.

Virou as costas me deixando sozinha com minha nova realidade.

Continua…

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