Eu odeio Ele – Eu não podia contar com ninguém. Na primeira oportunidade o Fumaça me deixou para trás

Capítulo 5

Porém seu pai e sua mãe lhe disseram: Não há, porventura, mulher entre as filhas de teus irmãos, nem entre todo o meu povo, para que tu vás tomar mulher dos filisteus, {…} E disse Sansão a seu pai: Toma-me esta, porque ela agrada aos meus olhos. (Juízes 14:3)

Se você me perguntar se eu já quis ser atriz a resposta será um sonoro não. O máximo que eu já fiz em uma peça foi ser uma árvore em apresentação boba da escola.

Hoje, continuo sem um pingo de vocação pra encenar. E isso ficou ainda pior quando me deparei vivendo na minha vida um verdadeiro roteiro de novela.

E para ser ainda mais vergonhoso, aqueles roteiros água com açúcar em que a mocinha foge com o amor da sua vida. Tudo bem que eu não conhecia direito o garoto que estava pilotando a moto a 200 km\h, mas era assim que eu me sentia. Uma mocinha, só que ao contrário da novela, eu estava fugindo com o vilão.

Enquanto o vento tocava meu rosto e fazia meu cabelo voar por entre o capacete comecei a pensar sobre o momento exato que perdi o controle de tudo. Eu só queria curtir e viver minha vida, por qual motivo fui parar na garupa de uma moto segurando a cintura de um cara que só estava me ajudando pra se vingar do amigo?

De repente um pensamento me ocorreu. Eu não sou ateia, e mesmo fazendo escolhas contrárias aos ensinamentos que cresci ouvindo, eu continuava acreditando em Deus.

E se o problema estivesse Nele? E se no dia em que ignorei Seus princípios tenha causado uma revolta no campo celestial ao ponto da ira Dele se voltar contra mim?

Era um pensamento absurdo, mas eu estava completamente perdida, e não fazia ideia de como encarar àquela situação. Não era uma explicação lógica, mas foi a única que consegui formular. 

Meus pais sempre me disseram que Deus é bom, mas e se Ele, assim como o Fumaça, fosse vingativo? Na Bíblia existem várias histórias de tensão entre o Senhor e “seu povo”, conflitos que nunca entendi.

Se Ele é tão misericordioso porque permitia que as pessoas sofressem sempre que O rejeitavam? Chegar àquela conclusão me deu medo. Se eu estivesse certa, então devia me preparar, porque eu não estava fugindo apenas com o vilão, eu tinha me tornado exposta as artimanhas de Deus.

– Você precisa dormir, a viagem vai ser cansativa. – O Fumaça advertiu, uma hora mais tarde, quando já estávamos em um hotel de beira estrada. Eu não tinha prestado atenção nas placas, mas pelo o que ele falou a alguns quilômetros estava a cidade de Tatuapé.

– Não consigo. – Respondi tristonha, não só por toda a situação, mas porque o sol já estava prestes a nascer e eu odeio quando isso acontece e eu estou acordada. A sensação de melancolia é horrível.

– Ficar pensando nos seus pais só vai piorar tudo. Precisamos nos concentrar em nos manter vivos. – Ele falou como se meus pais não fossem mais tão importantes quanto eram quando estava tentando me convencer.

 – Você tem ideia do quanto eles vão enlouquecer quando chegarem do trabalho e perceberem que eu não voltei da escola, e nem liguei o dia inteiro!

– O bilhete vai acalmar eles. – O desdém em sua voz me deixou ainda mais irritada.

– Eu não sou esse tipo de garota! Eles não vão acreditar!

– Fala baixo! – Pela primeira vez ele olhou pra mim, desde que saímos do meu quarto. Eu estava em cima da única cama de solteiro, e ele no chão, mas mesmo a posição superior não impediu que um arrepio percorresse meu corpo diante do seu olhar frio e de sua voz grossa.

Eu não queria que ele percebesse a reação que tinha causado, então respondi, com a voz mais firme que consegui:

– Seria bom você falar comigo direito, nenhum de nós dois queremos que eu desista dessa ideia maluca e peça socorro pra primeira pessoa que encontrar. – Como eu disse antes, nunca fui uma boa atriz. Essa ameaça não saiu no tom que eu queria, mas mesmo assim, ele fingiu acreditar e se deitou novamente.

Alguns minutos depois eu chorava silenciosamente imaginando o desespero dos meus pais, quando ouvi a mesma voz agradável do inicio da noite:

– Vou dá um jeito de você ligar pra eles.

Eu não respondi. Sabia que não podia confiar nas promessas de um desconhecido que não se importava de verdade comigo ou com minha família.

Eram quase 6 horas da manhã quando um barulho nos fez despertar no susto.

– O que foi isso, Fumaça?

– Precisamos sair daqui! – Ele já foi logo pegando nossas poucas coisas, e eu o imitei.  

– Mas por onde? – Olhamos em volta do quarto e não vimos uma solução, mas o outro chute na porta, nos fez enxergar a janela.

– Vamos pular!

– De jeito nenhum! – O quarto ficava no primeiro andar, mas mesmo assim eu sabia que me espatifaria. 

– Você vai morrer sozinha! – Como podia pensar na possibilidade de me deixar?

Seu braço em frações de segundos se desvencilhou da minha mão.

– Abre essa porta agora, garoto!

Mesmo tendo escutado poucas vezes, eu jamais esqueceria a voz do Toddy, e com toda certeza não era aquela.

– Quem está na porta, Fumaça?

– Não quero descobrir! – Quando disse isso, não se passaram nem dois segundos e ele pulou.

Eu não conseguia acreditar que ele tinha me deixado, de repente o medo foi substituído por uma raiva impetuosa e que quis, por alguns segundos, que o cara da porta o pegasse.

Mas isso passou, assim que o quarto foi invadido e eu ainda estava no dilema de pular ou não.

– Vem logo, garota. – O Fumaça gritou, já com o motor da moto ligado.

– Se você pular vai ser pior, princesa. – A voz soou ameaçadora atrás de mim, e eu não esperei pra descobrir se falava a verdade ou não.

Não tive tempo de avaliar a forma como encontrei o chão, ignorei a dor e o sangue que emanavam do meu joelho, e corri pra moto.

O cara ficou gritando os xingamentos mais horríveis, mas não demorou muito até repetir a nossa ação.

A moto logo estava a todo vapor, e corríamos como se estivéssemos em uma disputa, e deixar os outros competidores passar um milésimo da gente, fosse custar a nossa vida. O que não era de todo uma mentira.

Eu não olhei pra trás uma vez sequer, mas podia sentir que ele estava nos seguindo. A paisagem, as placas, os outros carros, tudo passou despercebido. Se o Fumaça batesse, eu só perceberia depois de já está no chão, talvez morta.

Alcançamos uma parte da estrada que estava em obras, então tinha alguns veículos provocando engarrafamento. Isso estava no topo das 10 coisas que mais me irritam na vida, e é um dos motivos para eu não almejar, como tantas pessoas, tirar a carteira de habilitação. Mas naquele momento agradeci.

Por conta da moto, conseguimos passar entre eles, mas o cara teve que parar e pude imaginar seu ódio.

– Vamos ter que abastecer. – O Fumaça anunciou, depois que percorremos uns 5 quilômetros.

– É mesmo necessário? – Eu temia que parar significasse nossa morte.

– Estamos ficando sem gasolina, se ignorarmos o próximo posto, corremos riscos maiores.

Chegamos a um posto Ipiranga, e a fila estava grande. Devia ser o único nas redondezas. Enquanto esperávamos, comecei a digerir o que tinha acontecido.

– Essa foi por pouco. – Minha voz ainda estava ofegante, e meu coração a mil. – Quem era aquele cara, Fumaça?

– Com certeza o Toddy descobriu onde estávamos e mandou ele atrás da gente. Sua  voz não estava muito diferente da minha.

– Assim, tão rápido?

– Ele não trabalha sozinho, Priscila. – Ao falar isso seu rosto ficou sombrio, e me perguntei se realmente estava falando do amigo. O olhar profundo voltado pro chão me fez pensar se tinha uma terceira pessoa envolvida, alguém que eu devesse temer mais do que ao Toddy.  

– Temos que sair daqui o mais rápido possível, ele não vai dá esse vacilo de novo.

Eu ia responder alguma coisa, mas de repente não consegui. Lágrimas corriam pelo meu rosto, e os soluços pareciam arrancar minha garganta.

– Para com isso, garota, todo mundo tá olhando pra gente. Vão pensar que te bati. – Sua voz voltou a ficar dura, e sua mão apertando minha coxa deixou claro que era uma ordem. O que só me fez chorar. – Priscila, pelo amor de Deus, você quer nos entregar?

Antes que outro aperto na minha coxa aumentasse as lágrimas, eu o abracei por trás. O gesto o endureceu e o deixou sem palavras. Não era minha intenção, eu só não queria que as pessoas pensassem que ele tinha me agredido, ou algo do tipo. Eu não podia piorar tudo.

A fila andou e eu continuei grudada nele. Enquanto o frentista abastecia, tentava fazer algum contato visual comigo para saber se devia me socorrer.

– Ela torceu o joelho. – O Fumaça tentava explicar, mas sua falta de coragem pra encarar o funcionário e todas as outras pessoas no posto, entregava a mentira. – Fica calma, Pri, vamos parar no próximo hospital. – Na tentativa de amenizar a cena, ele desceu da moto e me virou de lado.

– Eu … E.. eu – Murmurei e cai em seu pescoço, foi minha vez de ficar surpresa. Ele me abraçou.

– Vai ficar tudo bem, garota. – Apesar do tom de voz distante e seco, seus braços eram aconchegantes e seguros. Eu estava apavorada. Não fazia nem dez horas que eu tinha fugido e mais pareciam anos.

Um buraco se instalou no meu peito, e aquela sensação era nova e assustadora. Eu não sabia como reagir. Pensar em meus pais só aumentava o vazio, e imaginar aquele cara nos encontrando de novo fazia minha mente ficar turva.

Eu estava assustada, e não tinha ninguém para me acalmar. Eu não confiava no Fumaça, e por mais que seus braços tentassem passar segurança, a distância que ele mantinha do meu corpo dizia outra coisa.

Ele não estava do meu lado. Na primeira oportunidade que teve me deixou pra trás sem pensar duas vezes.

– Bebe, Pri, vai te deixar melhor. – Passei cinco segundos pra entender que um copo de água com açúcar estava sendo me oferecido. Quis recusar, mas a cara de preocupação do frentista me forçou a tomar.

Seguimos viagem até chegarmos à entrada de Monte Alto e um Siena preto parado na estrada me chamou atenção.

– Fumaça…

– É meu amigo, vamos ficar escondidos por uns dois dias na casa dele. Ele é assustador, mas não precisa ter medo.

– Bela forma de caracterizar alguém. – Debochei, em uma tentativa fracassada de parecer despreocupada.

– Você quer comer alguma coisa? – A pergunta me pegou desprevenida. Parecia que tinha se passada décadas desde que eu tinha colocado alguma coisa na boca.

– Hum rum. – Tinha acabado de perceber que estava morrendo de fome.

Jogou o biscoito em cima de mim, era daquele tipo água e sal. Em casa eu só como com algum recheio, mas naquele momento percebi que tinha sorte de ao menos ter o biscoito.

Continua…

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