Eu odeio Ele – Um estranho pulou para dentro do meu quarto (pela janela) e me convenceu a fugir com ele

Capítulo 4

“Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntou tudo o que era seu e partiu para um país que ficava muito longe.” (Lucas 15:13)

Três semanas se passaram e eu reagia de forma mais sensata ao ocorrido. É claro que eu não conseguia esquecer por um dia sequer aquela noite. Demorava horas para dormir revivendo as cenas desde o banheiro até a partida, e quando enfim pegava no sono acordava no meio de um pesadelo em que o Toddy estava atrás de nós. No final do sonho eu sempre parava nos braços do Fumaça, que de um jeito sombrio sussurrava meu nome.

Na escola, eu não conseguia prestar atenção nas aulas, e por isso, tive que aumentar o meu tempo de estudo à tarde pra não ser prejudicada no final do ano. Meus pais devem ter percebido algo diferente, eu já não conversava tanto como antes e passava mais tempo no meu quarto do nunca. Imagino que eles associaram essas mudanças à minha recente decisão de renegar a opinião deles na minha vida.

Enquanto eu tentava fingir que estava tudo bem, a Clara tinha crises repentinas de choro e estava faltando mais aula do que o normal.

Marta, sua mãe, sempre que me via perguntava se eu sabia de alguém que poderia ter feito alguma coisa contra a ‘Clarinha’. Eu desconversava, mas já estava ficando sem desculpas. A TPM não podia mais ser a culpada.

– Clara, você precisa parar com essa paranoia! – Alertei quando estávamos voltando da escola e ela tinha rejeitado o terceiro convite de uma festa no mês. Aquilo também estava me prejudicando. Eu não queria deixar de curtir por conta do medo, mas não podia fazer isso com minha amiga sendo tão antissocial.  

– Eu não sou você, Priscila. Estou traumatizada, não paro de pensar que aquele cara pode aparecer a qualquer momento e nos matar.

– Ele deve ter morrido. – Eu repetia isso várias vezes ao dia de frente para o espelho.

– Mas ainda tem o tal do Fumaça. Ele me pareceu bem descontrolado. Nós somos testemunhas do que ele fez, pode querer nos apagar!

Eu não tinha pensado naquilo. Fiquei tão perturbada com a possibilidade do Toddy não ter morrido e resolver terminar o que começou, que acabei fechando os olhos para os outros riscos.

– Ele sabia meu nome. – Pensei alto.

– Isso é o menos importante. Eu realmente devo ter te chamado.

– Eu lembraria.

– Impossível, amiga. – A Clara tentou me acalmar pela primeira vez naquelas três semanas. – Ficamos muito nervosas, não tem como lembrarmos de tudo.

Eu não disse mais nada. Sabia que minha mente podia está me enganando e eu não ter guardado muitos detalhes, mas algo me dizia que eu estava certa em me preocupar. 

Uma noite após essa conversar, eu estava desligando o computador, depois de passar 2 horas assistindo Flash na tentativa de sentir sono e conseguir dormir direito, quando uma pessoa cai da janela dentro do meu quarto.

Minha luz ainda estava acessa, e por isso o susto não foi maior. Era ele. O garoto não sabia só quem eu era, mas também onde eu morava.

Minha primeira reação foi gritar e correr pra porta, mas antes que eu conseguisse destrancar, o Fumaça chegou perto de mim e prendeu minha mão que estava na fechadura.

– Me larga ou vou chamar meus pais!

– Para com isso, garota, eu não vou fazer nada com você. – Sua voz estava baixa e tranquila, e a proximidade me obrigou a olhar em seus olhos. Pela primeira vez eu o vi de verdade.

Ele tinha o olhar profundo e triste, que me despertou pena. Eu sou daquelas que acreditam no famoso clichê de “os olhos são as janelas da alma”, e por esse motivo sempre tento decifrar as pessoas através dessas pequenas bolas. No caso do Fumaça, não eram tão pequenas assim.

Seus olhos, do tamanho de uma moeda de 25 centavos, pareciam assustados – com o tempo descobri que eram assim por natureza – o que combinava perfeitamente com o desenho do seu nariz e suas bochechas nem gorduchas nem magrelas.

– Eu preciso que você me ouça com calma. Eu só quero conversar. – Em contrapartida, sua voz era calma e insanamente agradável.

Fiquei tentada a gritar, mas como eu explicaria aos meus pais onde conheci aquele garoto? Eles nunca acreditariam que eu não tinha dado o endereço da minha janela pra ele. Resolvi ao menos ouvir o que ele tinha pra dizer, na pior das hipóteses eu o empurrava pela janela.

Sim, naquela ocasião não passou por minha cabeça que ele podia está armado, e aí eu que seria empurrada janela a baixo.

– Como você sabe onde eu moro? – Juntando todas as poucas técnicas de encenação que eu sabia, tentei fingir calma e tranquilidade. Puxei minha mão da sua, e sem muito esforço consegui soltar. Sai de perto dele e fui andando em direção a minha cama, ele me acompanhou.

– Um estranho está dentro do seu quarto e antes de querer saber o porquê você pergunta como ele descobriu sua casa?

– Fala o que você quer, garoto. – Prometi a mim mesma que iria dá um minuto pra ele se explicar, se não assim não fizesse, eu ia pedir socorro.

Vendo minha impaciência, começou.

– O Toddy não morreu. – Aquela notícia balançou minhas estruturas e tive vontade de chorar. No fundo eu alimentava a esperança de que ele tinha batido as botas, e o fato disso não ter acontecido me impediu de segurar todo o medo que eu estava sentindo. – Fica calma, eu não to aqui porque ele mandou.

– Você veio me matar! Sai daqui, vou chamar a polícia! Saiiiiiiii!!

– Presta atenção, Priscila: Eu vim aqui pra te ajudar! – Seus braços não estavam dando conta de me segurar. – Se não fugirmos ele vai nos matar!

– Seu idiota, filho de uma mãe, me solta!! – Minha ânsia de sair dali impedia de ouvir as palavras dele com atenção.

Vendo que de nada ia adiantar pedir pra eu me acalmar, brutalmente me jogou na cama. Aquilo tirou minha atenção do medo, mas também despertou minha fúria. Quem ele pensava que era para me tratar daquele jeito? Eu o tinha visto atirar em alguém, podia muito bem entregá-lo pra polícia.

Antes que eu começasse uma tempestade de acusações, tratou de falar.

– O Toddy não está nada feliz em saber que eu atirei nele pra defender duas patricinhas que ele queria mortas. Você sabe muito bem que se meteu no nosso caminho naquela noite, então ou você faz o que eu disser ou fica sozinha e paga pra ver.

Sua voz passara de agradável para ameaçadora. Eu não conseguia me mexer, não conseguia acreditar no que ele estava dizendo e só pensava que na verdade era ele quem queria me matar.

– Você não está acreditando em mim, não é? Olha essa mensagem e veja se o que estou dizendo é mentira.

Pegou o celular no bolso, e sem desviar a atenção de mim, deu um play em um áudio no celular.

“Seu moleque desgraçado, você vai pagar o que fez. Isso não vai sair barato! Eu vou achar você e aquelas vadias.”

Quando eu pensei que tinha acabado, outra bomba:

“Fomos muito bem pagos pra acabar com aquele garoto, quando ele descobrir que não fizemos isso vai atrás de mim, de você e delas. Torça pra que eu te encontre antes disso.”

– Como você pretende se safar? – Perguntei, ainda em estado de choque.

– Eu não faço a mínima ideia. A única coisa que pode dá certo é fugirmos.

– A gente? Eu não te conheço, não vou fugir com você! Posso chamar a polícia e contar tudo o que aconteceu. – Eu não queria que isso soasse como uma ameaça, por algum motivo ele estava me ajudando desde aquela noite louca, então independente das suas intenções eu sentia como se tivesse em dívida com ele.

– Priscila, a polícia não pode te ajudar. Nenhum policial vai ficar 24 horas com você. Sem falar na sua família. Ou você está esquecendo que seus pais também correm perigo? O Toddy não é burro, ele não vai aparecer quando todos estiverem esperando. Uma hora vocês vão vacilar e achar que está tudo bem, e vai ser nesse momento que irão se deparar com as consequências da sua escolha. E a família da Clara também corre riscos.

Ele pareceu juntar todas as suas forças para falar aquilo. Não parava nem sequer pra respirar, estava totalmente focado em me convencer. Objetivo que conseguiu no momento em que falou dos meus pais.  

– O que eu tenho que fazer? – Já me sentia derrotada.

– Fugimos pra casa de um amigo meu e depois despistamos o Toddy, e ai esperamos até ter certeza que é seguro voltar.

– E quando vai ser seguro? – Me questionei se um dia seria. Aquele pensamento me deu tontura e falta de ar. Olhei em volta do meu quarto e não consegui segurar o choro. Como fui me meter naquela situação? Eu estava com um garoto completamente estranho dentro do meu quarto e acabara de ouvir a notícia que mudou toda minha vida.

Amaldiçoei a noite em que o vi pela primeira vez. Amaldiçoei minha ida àquela festa. Amaldiçoei minha curiosidade, e por fim, desejei voltar no tempo e perguntar aos meus pais se eu podia ir àquela maldita boate.

 Enquanto tentava recuperar o controle da situação mais ar me faltava. Meus pais já estavam dormindo, quis chamá-los, gritar, pedir ajuda, dizer o que tinha acontecido, talvez as coisas pudessem se resolver…

Uma outra coisa também acendia uma luz vermelha na minha cabeça.

– Por quê?

– O quê?

– Por que você quer me ajudar? O que você ganha com isso?

Ele se afastou e começou a andar em círculos pelo meu quarto.

– Responde! – Insisti.

– Priscila, eu já fiz muita coisa errada na vida, – nesse momento ele parou em frente ao espelho, ao lado do meu criado mudo, e ficou encarando o próprio reflexo – e a maioria delas foi por conta do Toddy. Eu não atirei nele pra salvar duas estranhas, eu atirei nele pra vingar, e continuo fazendo isso quando não deixo que ele nos alcance.

Agora sim estava tudo explicado.

Continua…

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