Eu odeio Ele – Assisti uma tentativa de homicídio, e depois precisei lutar por minha própria vida

Capítulo 2

“Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira…” (Marcos 8:35)

Era minha primeira vez em uma boate e ninguém precisou me ensinar como dançar ou agir. A música era Don’t look down, de Martin Garrix, e a cada movimento meu corpo se sentia no céu.

Depois de um tempo eu já estava cansada, mas não queria sai da pista, tinha medo daquela euforia ir embora e por isso fiquei irritada quando a Clara me puxou e disse para irmos beber alguma coisa. Aproveitei para passar no banheiro e no caminho vi pessoas fumando maconha, conversando ou ficando — tinha um cara com duas garotas ao mesmo tempo, intercalando as bocas, tive vontade de vomitar.

Quando íamos entrar no sanitário feminino ouvi um grito vindo do masculino.

– O que você está fazendo? – A Clara quis saber.

– Ouvi um barulho estranho, quero saber o que é.

– Você tá maluca, Priscila? Deve ser alguém se pegando. – Ela puxou meu braço e eu me mantive firme. Estava começando a viver a vida, mas sabia diferenciar quando um grito era de prazer ou dor.

Espiei da porta, com cuidado para ninguém me ver, não ouvi nenhum barulho além de risadas e conversas, então novamente o grito, só que dessa vez foi abafado. Me enganei, era no banheiro feminino.

– Priscila, vamos sair daqui.

Minha curiosidade era maior.

– Não, quero saber o que está acontecendo!

Mesmo contra sua vontade, a Clara obedeceu.

Coloquei metade do meu corpo pra dentro e desejei nunca ter feito aquilo. Um garoto engarguelava outro na parede. Não era uma briga justa. O selvagem devia ter uns 18 anos e era forte, seus braços pareciam duas bolas de futebol, e a presa não devia ter mais do que 15 anos, e me lembrou aqueles feitos bonecos com palitos. 

Os murros no estômago do boneco se intensificaram e ele alternava entre gritos e sussurros de misericórdia. Eu não consegui me mexer, nunca tinha visto ninguém apanhar ao vivo, e tudo piorou, quando o garoto chamou pela mãe.

Ele só queria ficar vivo, era um adolescente que, provavelmente, como todos os outros, chama pela mãe quando as coisas ficam feias. Mas o selvagem não via assim. Ele continuava batendo e quando os murmúrios começaram a lhe incomodar transferiu os socos para o rosto do garoto.

Aquilo foi demais pra mim, parte do meu cérebro dizia que eu tinha que fazer alguma coisa, mas meu corpo não conseguia obedecer.

– O que tá pegando, Priscila?  

– Um homicídio. Precisamos chamar a polícia. – Minha intenção era sussurrar, mas não consegui e, então, eles nos viram.

O olhar do selvagem era profundo e sombrio. Nos avaliou e quando percebeu que tinha plateia, soltou o garoto e começou a andar em nossa direção.

Até então, não tínhamos conseguido nos mexer, mas foi sua voz grave, arrastada e ameaçadora que nos fez entender que ou corríamos ou morríamos.

– Pega elas, Fumaça. – Quem era Fumaça? Não tínhamos visto uma terceira pessoa no banheiro.

Só fizemos uma coisa: correr.

Chamávamos a atenção de todos que passavam por nós. Atônitas, as pessoas iam abrindo caminho. É claro que todos saibam que estávamos correndo de alguém, que algo tinha dado muito errado, mas ninguém se opôs para perguntar o que tinha acontecido.

De repente ali pareceu o pior lugar do mundo. A música, a festa, tudo ficou insuportável.

Corremos tão rápido que eu podia quase sentir meu coração perfurando minha pele e minha respiração pedindo socorro. Eu não fazia ideia se eles tinham vindo atrás da gente, e nem ousei olhar pra trás. Preferi acreditar que a ameaça foi só para nos causar medo. Mas eu estava enganada.

Eles nos esperavam na porta da boate, e o pânico só aumentou assim que percebi que se um alfinete caísse daria para ouvir naquele local.

– Por favor, nos deixe ir embora, juro que não vamos falar nada para ninguém. – A Clara suplicou, ao se jogar no chão. Eu fiz o mesmo.

– Você é burro??? – Seus gritos faziam parecer que seu parceiro estava na outra rua, e não do seu lado. – Ela não pode sair daqui! – O uso do pronome no singular chamou minha atenção, mas atribui o erro as emoções fervorosas do momento.

Em minha cabeça eu planejava alguma maneira de fugirmos, eu estava determinada a não morrer. Já a Clara só fazia chorar, não fique irritada com isso porque eu tinha nos metido naquela situação.  

– Toddy, as meninas só apareceram no lugar errado e na hora errada. Libera elas. – A postura cabisbaixa e o a voz trêmula mostravam o quanto o Toddy tinha influencia emocional sobre o Fumaça.

O diálogo acontecia como se não estivéssemos ali, e vi nisso nossa chance de fugir.

– Fica calado! Se você estragar tudo eu te mato também! – O Fumaça recuou, e quando eu estava sinalizando pra Clara se preparar porque íamos correr, o selvagem  voltou sua atenção pra gente.

– Vocês duas irão ficar quietinhas – enquanto ordenava, vinha andando em nossa direção com o revólver apontado – e vão fazer tudo o que eu mandar.

Nesse momento a paralisia corporal já tinha voltado, e a última coisa que minhas pernas queriam fazer era correr.

A Clara continuava chorando e aquilo o irritou tanto que ele puxou o gatilho.  Segurei na mão dela e apertei forte. Ela suava e tremia tanto quanto eu.

Quando o Toddy estava a três passos de encostar a arma em uma de nós ouvimos o disparo.

Continua…

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